Continuando com os artigos do Sr. Okada, Fundador e Diretor dos Museus de Arte de Hakone e Atami, veremos o que ele nos diz da escultura.
2 - A Escultura
A seguir, discorrerei, brevemente, acerca da Escultura. Como artistas do passado, Unkei e Jingoro Hidari são por demais conhecidos. Todavia, no campo da Escultura, diversamente da Pintura, desde a Antigüidade, são poucos os mestres de renome. Ocupar-me-ei, aqui, somente da atualidade. É fato indiscutível que o florescimento registrado pela Escultura a partir da era Meiji, como jamais se viu, contou com o estímulo das exposições. Citaremos, como os principais grandes mestres da Escultura em madeira, não só Komei Ishikawa, Unkai Yonehara e Tyoun Yamazaki — entre falecidos e já de idade avançada —, assim como também Dentyu Hirakushi e Chozan, o qual hoje adota o nome de Seizo, Sato. Dentre eles, eu gosto de Dentyu, não obstante ele ter perdido, recentemente, a vivacidade antes possuída. Hoje, apenas Seizo trabalha ativamente, produzindo obras relativamente boas. Embora sua ambição transbordante seja apreciável, seria de se desejar dele um pouco mais de refinamento e maturação. No mundo deserto da Escultura, ele tem todas as qualidades para se tornar um dos grandes nomes da atualidade. No que concerne à Escultura de bronze e argila, sou obrigado a apontar apenas Fumio Asakura. Contudo, não deve consistir em ponto de vista exclusivamente meu que sua técnica parece ter atingido o ponto final. Aqui, ainda deve ser feita menção especial à escultura budista da Antigüidade. É-me impossível acreditar que a refinada técnica empregada nas imagens religiosas do santuário Yumedono, do templo Horyuji, é coisa da Era Tempyo, de mais de 1.200 anos atrás. Ao pensar quando surgirão esculturas que suplantem estas, vejo-me obrigado a não acalentar grandes expectivas.
sábado, 31 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Entendendo a pintura japonesa
Olá a todos!
Gostaria de apresentar aqui mais um artigo do Diretor do Museu de Arte de Hakone e Atami, Sr. Mokiti Okada, talvez o maior entendido em pintura japonesa. Ele faz uma crítica direta e crua sobre esta modalidade do Japão à sua época (primeira metade do século XX). Eis o que ele nos diz:
1 - A Pintura
Ao abordar a Arte japonesa, pretendo fazê-lo dividindo em três partes: Pintura, Escultura e Artesanato.
Primeiramente, a Pintura. É possível afirmar que a Pintura japonesa atual se vê em face a um momento crítico. Trata-se de opinião unanimemente compartilhada por todos aqueles que têm interesse por este ramo da arte que a situação não é fácil. Escusado dizer que a Pintura japonesa enfrentou uma grande fase de transformações no período que se estende do final do xogunato Tokugawa até a era Meiji, e que as demais artes e artesanato se viram também envolvidos. Cito como pintores que se mantiveram vivos, tendo ultrapassado essa situação, depois de muito se debaterem, os seguintes: Tyokunyu, Zenin, Yosai, Fuko, Hogai, Gaho, Yoshitoshi, dentre outros. Os pintores pósteros jamais devem se esquecer de que eles venceram as adversidades, tendo lutado contra a miséria e guardado até o fim a última fortaleza. Foi nessa época que Gaho logrou, a muito custo, matar a fome, tornando-se vendedor de antigüidades. Posteriormente, quando a situação social se acalmou, e, com isso, aconteceu também esse ramo ter-se recuperado, o mundo viu o estabelecimento de escolas de Belas-Artes, museus e exposições — em especial a Exposição de Artes do Ministério da Educação. Eis que, finalmente, a primavera visitou os círculos da Pintura. Não obstante, o mundo da Pintura japonesa não conseguiu escapar do limiar da cega obediência às tradições. Todavia, o Instituto de Artes, criado sob os desígnios revolucionários do mestre pintor Tenshin Okakura, veio, repentinamente, lançar uma bomba atômica sobre o mundo da Pintura do estilo nipônico. Os pintores centrais deste movimento são quatro, a saber: Taikan, Shunso, Kanzan e Buzan. A intenção do Instituto de Artes estava, como já mencionei, no tópico acerca de Korin, em reabilitar este artista na atualidade. Em vista, no entanto, da imaturidade da ocasião, eles foram, inicialmente, tratados com menosprezo, sendo chamados pelo nome de escola da opacidade. Todavia, a sociedade, sedenta que estava de algo novo e insatisfeita com o antigo estilo de pintura, não conseguiu descartá-los. A sorte abençoou lépida este movimento. Não é preciso dizer que ele dominou os círculos pictóricos avassaladoradamente, podendo-se afirmar que operou neles uma verdadeira revolução. À parte temos, ademais, atuando com um trabalho conjugado, o grande mestre Gyokudo, dono de um estilo suave e particular. Em Quioto, surgiu como a estrela-d'alva o talento raro de Seiho Takeuchi, e Tessai Tomioka, outro senhor de um estilo peculiar, ambos ocupando uma posição de importância naquela metrópole do oeste. Graças a eles, finalmente o apogeu da Pintura nipônica eclodiu. Contudo, Shunso morreu jovem, sendo seguido de Kanzan e Buzan. Em Tóquio, hoje, restaram apenas Gyokudo e Daikan, a sustentar o mundo da Pintura nipônica prestes a ruir. Também em Quioto, Seiho e Tessai faleceram, assim como faleceu, jovem ainda, Kansetsu, a quem julgavam mesmo o sucessor da obra dos dois primeiros. Tanto no leste como no oeste, o mundo da Pintura japonesa ficou vazio como um teatro.
O que acabo de expor acima diz respeito aos grandes mestres anciãos. Devem ser apontados, como candidatos a ocupar futuramente tal posição, em Tóquio, Kokei, Yukihiko e Seison — três grandes artistas da escola do Instituto de Artes. Todavia, estranhamente, aos dois primeiros, pela saúde débil, falta vigor, o que transparece também em suas obras. Seison, ademais, nestes anos recentes, mostra-se desanimado, não se podendo, pois, esperar, por um bom tempo, grandes peças da parte deles. É, realmente, uma grande pena. De resto, tem-se a existência de Ryushi Kawabata, a guardar uma base solitária. Sua técnica é excelente, bem como é transbordante a sua garra. O que é lamentável, porém, é que seu estilo se assemelha à comida chinesa, sendo um pouco pesado, e o fato de ele apegar-se à teoria da "arte de recinto", não tendo ainda despertado para a falácia que ela representa. Excetuando-se esses dois pontos, ele possui, suficientemente, as qualidades exigidas de um grande mestre. Em Quioto, Goun e Keisen faleceram; Insho é doentio e sem ânimo; resta só Heihachiro Fukuda. Todavia, apesar do talento que possui, sua técnica deixa a desejar; infelizmente, talvez, ele não seja capaz de escapar da fase de estagnação. Por conseguinte, em se examinando o futuro do mundo da pintura japonesa, é difícil vaticinar o seu paradeiro.
Aqui, eu intenciono apresentar minha opinião bem franca a respeito da razão que conduziu os círculos da Pintura nipônica ao declínio — a moda da pintura de recobrimento. Fazendo uma avaliação imparcial, eu concluo que a Pintura japonesa de hoje não se trata de Pintura. É a técnica artesanal do recobrimento. Posso estar sendo cruel, mas penso que ela se enquadra mais na área do Artesanato artístico do que na da Pintura. É a completa decadência. Desse jeito, diluir-se-á mais e mais o interesse por ela. Eu mesmo adoro a pintura, mas não tenho o mínimo interesse por peças produzidas com a técnica de recobrimento. Talvez esta possa ser uma opinião exclusivamente minha, mas, ao cogitar sobre o futuro da pintura japonesa, depois de Taikan e Gyokudo ausentes, não consigo conter a onda de pessimismo que espontaneamente brota dentro de mim. Nesse sentido, somente as obras antigas poderão saciar a nossa sede de beleza. Não sei se a causa está em tal fato, mas ouvi dizer que todas as exposições realizadas este ano registraram déficit, em virtude da redução de público. Então, não posso ficar sossegado.
Tenciono falar agora um pouco a respeito da pintura antiga. Dentre tais obras, gosto, a começar das mais remotas, de Keishoki, Shubun e Soami; passando pelas chinesas, como as de Mu Hshi, Liang K'ai e Yin T'o-lo; bem como as de Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson. Da época mediana, aprecio as de Korin — indiscutivelmente —, Sotatsu, Kenzan, Okyo e Matabee. No gênero xilogravura ukiyo-e, as de Moronobu, Harunobu e Utamaro. Na modernidade, devo citar, unicamente, as de Hoitsu; e, contemporâneas, as de Seiho, Taikan, Shunso, Gyokudo e Kansetsu.
Sobre elas, tentarei apresentar um breve comentário. Primeiramente, a técnica pictórica e o conteúdo das obras de Keishoki, Shubun, Mu Hshi, Liang K'ai e Soami, no âmbito da pintura antiga, resume-se no termo "maravilha". Não é exagero dizer que a excelência daquelas peças executadas dentro de um período que vai de 400 a mais de 700 anos passados, quando em cotejo com as obras dos grandes artistas atuais, torna estes últimos discípulos daqueles. Por maior que seja a atenção com que contemplemos aquelas telas, não lograremos descobrir um único defeito; mais que isso, delas afluirá, infinitamente, algo superior. Elas terão sempre alguma coisa a comover quem as contempla. Naturalmente, toma-se uma atitude de humildade perante elas. No tangenteàs peças de Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson, não diria que todas elas são boas, mas, de vez em quando, há algumas de rara superioridade. Com respeito a Korin, por já ter escrito sobre ele no respectivo artigo, omiti-lo-ei. Sotatsu também apresenta peças superiores. Apesar de não ser tão arrojado quanto Korin, é de uma simplicidade acurada ao extremo. Desprevenidos, sorrimos diante de suas obras, e eu gosto incontidamente delas. Kenzan tem um sabor especial e, conquanto seu pincel seja um pouco duro e apresente características primárias, seu estilo nos prende. Okyo é convencional e impecável. De alta classe, logra sucesso em qualquer empreendimento: um mestre, enfim. Matabee, cujo outro pseudônimo é Katsumochi, demonstra exímia harmonia tanto no estilo yamato-e como no da escola Kano; suas obras possuem nobreza, sendo muito apreciáveis. Hoitsu, como todos sabem, é um cultor de Korin. Sua nobreza peculiar, sua técnica refinada e, por outro lado, o sabor da sua faceta de poeta, tornam suas obras atraentes.
Podem ser enumerados, como mestres da pintura moderna, Hogai, Gaho e Shunso; como pintores contemporâneos, citaremos três: Seiho, Taikan e Gyokudo. A genialidade de Seiho não admite imitadores. No que toca à sua técnica realista, ele introduziu, da influência de seus estudos no exterior, o estilo ocidental no uso das cores. A acuidade com que capta a sensação do objeto e a destreza de expressão não encontram par, seja hoje, seja na Antigüidade. Vale frisar que sua pintura é concisa ao extremo e que ele não descuida nem mesmo de um único ponto — uma técnica perfeitamente sobre-humana. Em oposição, quanta vulgaridade nos pintores atuais que, com traços e cores repulsivas, colorem tudo sufocadamente! Fico a cogitar no porquê de eles não compreenderem Seiho. Quero adquirir coragem para, com um só berro que condense o significado de milhões de palavras, alertá-los disso. Devo convir, entretanto, que a razão de eles rebuscarem seus quadros da mencionada maneira pode também advir da intenção de serem selecionados de qualquer forma para as exposições de arte, apelando para a complacência do júri, por intermédio de tinta e esforço.
Passemos a Taikan. Como um dos grandes mestres da escola que dispensa linhas, suas peças têm um sabor que transcende o mundano. Simples e elegante, sua técnica sobre-humana de expressar as coisas da natureza é oposta à de Seiho — que se apega demais ao realismo. Ele procede com cautela em meio à ousadia: sua maneira de expressão do objeto e sua técnica, bem como a atitude que ele assume com ar superior, ao postar-se num estado que lhe é característico, sem adular as massas, engrandecem-no. É de se lamentar somente que os seus temas sejam limitados. Quanto a Shunso, pode-se dizer que desempenha o papel de braço direito de Taikan. A suavidade de sua pintura é como um passeio por um campo na primavera, sendo agradável o seu estilo.
Gyokudo tem um sabor peculiar que é indescritível. Seus traços, sobretudo, são suaves e concisos. Sua técnica, demonstrando muito bem esse efeito, é incomum. O que em especial eu admiro nele é a sua falta de ostentação e ambição, seu desinteresse: á a sua invulgaridade que pode parecer vulgar. Ele expressa com perfeição a natureza, e sua forca de encantar quem contempla suas peças não admite rivais. Seu estilo é verdadelramente profundo.
A obra de Tessai também é característica. Deve ser definida como a ordem da desordem: é infinitamente rica em interesse. Todavia, ele passou a pintar desta maneira depois de ter atingido os 60 anos. Assim, como viveu até os 89, quanto mais ele adentrava na idade, mais peças superiores produziu. Após seu passamento, acreditava-se que um segundo Tessai surgiria com Keisen Tomioka. A morte precoce deste foi realmente lamentável.
Com relação a Kansetsu, foi uma grande pena que ele morresse logo quando mais prometia. Na sua pintura, a ousadia que nela ocorre encontra-se envolta; sendo do estilo nanga, há tensão no uso do pincel. Além de não ser vulgar, transparece na mesma um sabor de quietude. Contudo, em virtude da sua juventude, era inevitável que a qualidade de suas obras não fosse constante. Se lhe fosse dado viver até depois dos sessenta, pelo menos, com certeza, ele teria atingido o grau de grande mestre.
Gostaria de apresentar aqui mais um artigo do Diretor do Museu de Arte de Hakone e Atami, Sr. Mokiti Okada, talvez o maior entendido em pintura japonesa. Ele faz uma crítica direta e crua sobre esta modalidade do Japão à sua época (primeira metade do século XX). Eis o que ele nos diz:
1 - A Pintura
Ao abordar a Arte japonesa, pretendo fazê-lo dividindo em três partes: Pintura, Escultura e Artesanato.
Primeiramente, a Pintura. É possível afirmar que a Pintura japonesa atual se vê em face a um momento crítico. Trata-se de opinião unanimemente compartilhada por todos aqueles que têm interesse por este ramo da arte que a situação não é fácil. Escusado dizer que a Pintura japonesa enfrentou uma grande fase de transformações no período que se estende do final do xogunato Tokugawa até a era Meiji, e que as demais artes e artesanato se viram também envolvidos. Cito como pintores que se mantiveram vivos, tendo ultrapassado essa situação, depois de muito se debaterem, os seguintes: Tyokunyu, Zenin, Yosai, Fuko, Hogai, Gaho, Yoshitoshi, dentre outros. Os pintores pósteros jamais devem se esquecer de que eles venceram as adversidades, tendo lutado contra a miséria e guardado até o fim a última fortaleza. Foi nessa época que Gaho logrou, a muito custo, matar a fome, tornando-se vendedor de antigüidades. Posteriormente, quando a situação social se acalmou, e, com isso, aconteceu também esse ramo ter-se recuperado, o mundo viu o estabelecimento de escolas de Belas-Artes, museus e exposições — em especial a Exposição de Artes do Ministério da Educação. Eis que, finalmente, a primavera visitou os círculos da Pintura. Não obstante, o mundo da Pintura japonesa não conseguiu escapar do limiar da cega obediência às tradições. Todavia, o Instituto de Artes, criado sob os desígnios revolucionários do mestre pintor Tenshin Okakura, veio, repentinamente, lançar uma bomba atômica sobre o mundo da Pintura do estilo nipônico. Os pintores centrais deste movimento são quatro, a saber: Taikan, Shunso, Kanzan e Buzan. A intenção do Instituto de Artes estava, como já mencionei, no tópico acerca de Korin, em reabilitar este artista na atualidade. Em vista, no entanto, da imaturidade da ocasião, eles foram, inicialmente, tratados com menosprezo, sendo chamados pelo nome de escola da opacidade. Todavia, a sociedade, sedenta que estava de algo novo e insatisfeita com o antigo estilo de pintura, não conseguiu descartá-los. A sorte abençoou lépida este movimento. Não é preciso dizer que ele dominou os círculos pictóricos avassaladoradamente, podendo-se afirmar que operou neles uma verdadeira revolução. À parte temos, ademais, atuando com um trabalho conjugado, o grande mestre Gyokudo, dono de um estilo suave e particular. Em Quioto, surgiu como a estrela-d'alva o talento raro de Seiho Takeuchi, e Tessai Tomioka, outro senhor de um estilo peculiar, ambos ocupando uma posição de importância naquela metrópole do oeste. Graças a eles, finalmente o apogeu da Pintura nipônica eclodiu. Contudo, Shunso morreu jovem, sendo seguido de Kanzan e Buzan. Em Tóquio, hoje, restaram apenas Gyokudo e Daikan, a sustentar o mundo da Pintura nipônica prestes a ruir. Também em Quioto, Seiho e Tessai faleceram, assim como faleceu, jovem ainda, Kansetsu, a quem julgavam mesmo o sucessor da obra dos dois primeiros. Tanto no leste como no oeste, o mundo da Pintura japonesa ficou vazio como um teatro.
O que acabo de expor acima diz respeito aos grandes mestres anciãos. Devem ser apontados, como candidatos a ocupar futuramente tal posição, em Tóquio, Kokei, Yukihiko e Seison — três grandes artistas da escola do Instituto de Artes. Todavia, estranhamente, aos dois primeiros, pela saúde débil, falta vigor, o que transparece também em suas obras. Seison, ademais, nestes anos recentes, mostra-se desanimado, não se podendo, pois, esperar, por um bom tempo, grandes peças da parte deles. É, realmente, uma grande pena. De resto, tem-se a existência de Ryushi Kawabata, a guardar uma base solitária. Sua técnica é excelente, bem como é transbordante a sua garra. O que é lamentável, porém, é que seu estilo se assemelha à comida chinesa, sendo um pouco pesado, e o fato de ele apegar-se à teoria da "arte de recinto", não tendo ainda despertado para a falácia que ela representa. Excetuando-se esses dois pontos, ele possui, suficientemente, as qualidades exigidas de um grande mestre. Em Quioto, Goun e Keisen faleceram; Insho é doentio e sem ânimo; resta só Heihachiro Fukuda. Todavia, apesar do talento que possui, sua técnica deixa a desejar; infelizmente, talvez, ele não seja capaz de escapar da fase de estagnação. Por conseguinte, em se examinando o futuro do mundo da pintura japonesa, é difícil vaticinar o seu paradeiro.
Aqui, eu intenciono apresentar minha opinião bem franca a respeito da razão que conduziu os círculos da Pintura nipônica ao declínio — a moda da pintura de recobrimento. Fazendo uma avaliação imparcial, eu concluo que a Pintura japonesa de hoje não se trata de Pintura. É a técnica artesanal do recobrimento. Posso estar sendo cruel, mas penso que ela se enquadra mais na área do Artesanato artístico do que na da Pintura. É a completa decadência. Desse jeito, diluir-se-á mais e mais o interesse por ela. Eu mesmo adoro a pintura, mas não tenho o mínimo interesse por peças produzidas com a técnica de recobrimento. Talvez esta possa ser uma opinião exclusivamente minha, mas, ao cogitar sobre o futuro da pintura japonesa, depois de Taikan e Gyokudo ausentes, não consigo conter a onda de pessimismo que espontaneamente brota dentro de mim. Nesse sentido, somente as obras antigas poderão saciar a nossa sede de beleza. Não sei se a causa está em tal fato, mas ouvi dizer que todas as exposições realizadas este ano registraram déficit, em virtude da redução de público. Então, não posso ficar sossegado.
Tenciono falar agora um pouco a respeito da pintura antiga. Dentre tais obras, gosto, a começar das mais remotas, de Keishoki, Shubun e Soami; passando pelas chinesas, como as de Mu Hshi, Liang K'ai e Yin T'o-lo; bem como as de Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson. Da época mediana, aprecio as de Korin — indiscutivelmente —, Sotatsu, Kenzan, Okyo e Matabee. No gênero xilogravura ukiyo-e, as de Moronobu, Harunobu e Utamaro. Na modernidade, devo citar, unicamente, as de Hoitsu; e, contemporâneas, as de Seiho, Taikan, Shunso, Gyokudo e Kansetsu.
Sobre elas, tentarei apresentar um breve comentário. Primeiramente, a técnica pictórica e o conteúdo das obras de Keishoki, Shubun, Mu Hshi, Liang K'ai e Soami, no âmbito da pintura antiga, resume-se no termo "maravilha". Não é exagero dizer que a excelência daquelas peças executadas dentro de um período que vai de 400 a mais de 700 anos passados, quando em cotejo com as obras dos grandes artistas atuais, torna estes últimos discípulos daqueles. Por maior que seja a atenção com que contemplemos aquelas telas, não lograremos descobrir um único defeito; mais que isso, delas afluirá, infinitamente, algo superior. Elas terão sempre alguma coisa a comover quem as contempla. Naturalmente, toma-se uma atitude de humildade perante elas. No tangenteàs peças de Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson, não diria que todas elas são boas, mas, de vez em quando, há algumas de rara superioridade. Com respeito a Korin, por já ter escrito sobre ele no respectivo artigo, omiti-lo-ei. Sotatsu também apresenta peças superiores. Apesar de não ser tão arrojado quanto Korin, é de uma simplicidade acurada ao extremo. Desprevenidos, sorrimos diante de suas obras, e eu gosto incontidamente delas. Kenzan tem um sabor especial e, conquanto seu pincel seja um pouco duro e apresente características primárias, seu estilo nos prende. Okyo é convencional e impecável. De alta classe, logra sucesso em qualquer empreendimento: um mestre, enfim. Matabee, cujo outro pseudônimo é Katsumochi, demonstra exímia harmonia tanto no estilo yamato-e como no da escola Kano; suas obras possuem nobreza, sendo muito apreciáveis. Hoitsu, como todos sabem, é um cultor de Korin. Sua nobreza peculiar, sua técnica refinada e, por outro lado, o sabor da sua faceta de poeta, tornam suas obras atraentes.
Podem ser enumerados, como mestres da pintura moderna, Hogai, Gaho e Shunso; como pintores contemporâneos, citaremos três: Seiho, Taikan e Gyokudo. A genialidade de Seiho não admite imitadores. No que toca à sua técnica realista, ele introduziu, da influência de seus estudos no exterior, o estilo ocidental no uso das cores. A acuidade com que capta a sensação do objeto e a destreza de expressão não encontram par, seja hoje, seja na Antigüidade. Vale frisar que sua pintura é concisa ao extremo e que ele não descuida nem mesmo de um único ponto — uma técnica perfeitamente sobre-humana. Em oposição, quanta vulgaridade nos pintores atuais que, com traços e cores repulsivas, colorem tudo sufocadamente! Fico a cogitar no porquê de eles não compreenderem Seiho. Quero adquirir coragem para, com um só berro que condense o significado de milhões de palavras, alertá-los disso. Devo convir, entretanto, que a razão de eles rebuscarem seus quadros da mencionada maneira pode também advir da intenção de serem selecionados de qualquer forma para as exposições de arte, apelando para a complacência do júri, por intermédio de tinta e esforço.
Passemos a Taikan. Como um dos grandes mestres da escola que dispensa linhas, suas peças têm um sabor que transcende o mundano. Simples e elegante, sua técnica sobre-humana de expressar as coisas da natureza é oposta à de Seiho — que se apega demais ao realismo. Ele procede com cautela em meio à ousadia: sua maneira de expressão do objeto e sua técnica, bem como a atitude que ele assume com ar superior, ao postar-se num estado que lhe é característico, sem adular as massas, engrandecem-no. É de se lamentar somente que os seus temas sejam limitados. Quanto a Shunso, pode-se dizer que desempenha o papel de braço direito de Taikan. A suavidade de sua pintura é como um passeio por um campo na primavera, sendo agradável o seu estilo.
Gyokudo tem um sabor peculiar que é indescritível. Seus traços, sobretudo, são suaves e concisos. Sua técnica, demonstrando muito bem esse efeito, é incomum. O que em especial eu admiro nele é a sua falta de ostentação e ambição, seu desinteresse: á a sua invulgaridade que pode parecer vulgar. Ele expressa com perfeição a natureza, e sua forca de encantar quem contempla suas peças não admite rivais. Seu estilo é verdadelramente profundo.
A obra de Tessai também é característica. Deve ser definida como a ordem da desordem: é infinitamente rica em interesse. Todavia, ele passou a pintar desta maneira depois de ter atingido os 60 anos. Assim, como viveu até os 89, quanto mais ele adentrava na idade, mais peças superiores produziu. Após seu passamento, acreditava-se que um segundo Tessai surgiria com Keisen Tomioka. A morte precoce deste foi realmente lamentável.
Com relação a Kansetsu, foi uma grande pena que ele morresse logo quando mais prometia. Na sua pintura, a ousadia que nela ocorre encontra-se envolta; sendo do estilo nanga, há tensão no uso do pincel. Além de não ser vulgar, transparece na mesma um sabor de quietude. Contudo, em virtude da sua juventude, era inevitável que a qualidade de suas obras não fosse constante. Se lhe fosse dado viver até depois dos sessenta, pelo menos, com certeza, ele teria atingido o grau de grande mestre.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Site sobre Ogata Korin
Olá a todos!
Já se encontra no ar o novíssimo site sobre este expoente máximo da arte japonesa, o grande Ogata Korin! Portanto, acessem e aprendam mais sobre este gênio!
http://www.ogatakorin.com.br
Já se encontra no ar o novíssimo site sobre este expoente máximo da arte japonesa, o grande Ogata Korin! Portanto, acessem e aprendam mais sobre este gênio!
http://www.ogatakorin.com.br
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Entendendo a Arte Japonesa
Gostaria de citar aqui algumas características da Arte Japonesa, a fim de estudarmos a melhor forma de sua apreciação. A Arte Japonesa é, como, talvez, tudo o mais no Japão, eminentemente meditativa, ao passo que a Ocidental é mais dinâmica. Veja-se, por exemplo, a música. Instrumentos como shamissen ou koto, pertencentes à música japonesa clássica, têm uma melodia suave que acalmam o espírito, ao passo que no Ocidente desenvolveram-se ritmos mais acelerados, como o jazz e o rock.
É claro que a origem disso é a própria formação histórico-religiosa do Japão, cujas religiões tradicionais, o budismo e o xintoísmo, inspiram a meditação. Além disso, neste país a Arte sempre esteve ligada à religião, de forma que herdou esta característica meditativa.
Outro ponto interessante da Arte Japonesa é o seu cotidianismo, o qual podemos tomar como exemplo uma ikebana (arranjo floral): o simples fato de se colocar uma flor em um vaso constitui uma expressão artística, bem como de preparar um chá (o famoso chanoyu, a Cerimônia do Chá).
Também a pluralidade é um fato marcante da arte japonesa. Hisayasu Nakagawa, autor de “Introdução à Cultura Japonesa – Ensaio de Antropologia Recíproca”, compara a pintura de Paul Cézanne (1839 - 1906), “A montanha Sainte-Victoire” com uma de Tessai, “O rio e a montanha dos eremitas”:
“A de Cézanne é estruturada em torno de um centro – a montanha – que dá equilíbrio e perspectiva ao conjunto da paisagem. No quadro de Tessai, não se pode falar de um único centro. É, ao contrário, a justaposição de vários lugares, cumes, riachos, bosques, pavilhões e eremitas, que proporciona a estrutura e o relevo da paisagem.”
É claro que a origem disso é a própria formação histórico-religiosa do Japão, cujas religiões tradicionais, o budismo e o xintoísmo, inspiram a meditação. Além disso, neste país a Arte sempre esteve ligada à religião, de forma que herdou esta característica meditativa.
Outro ponto interessante da Arte Japonesa é o seu cotidianismo, o qual podemos tomar como exemplo uma ikebana (arranjo floral): o simples fato de se colocar uma flor em um vaso constitui uma expressão artística, bem como de preparar um chá (o famoso chanoyu, a Cerimônia do Chá).
Também a pluralidade é um fato marcante da arte japonesa. Hisayasu Nakagawa, autor de “Introdução à Cultura Japonesa – Ensaio de Antropologia Recíproca”, compara a pintura de Paul Cézanne (1839 - 1906), “A montanha Sainte-Victoire” com uma de Tessai, “O rio e a montanha dos eremitas”:
“A de Cézanne é estruturada em torno de um centro – a montanha – que dá equilíbrio e perspectiva ao conjunto da paisagem. No quadro de Tessai, não se pode falar de um único centro. É, ao contrário, a justaposição de vários lugares, cumes, riachos, bosques, pavilhões e eremitas, que proporciona a estrutura e o relevo da paisagem.”
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Impressões diversas sobre as Artes Orientais
Gostaria de iniciar os textos sobre arte japonesa com um artigo do Sr. Okada, Fundador e 1º Diretor do Museu de Belas-Artes de Hakone, no Japão, e um dos maiores entendidos em arte japonesa da primeira metade do século XX. Eis o que ele escreveu:
IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS
23 de julho de 1952
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Introdução
Olá a todos!
Estou iniciando este blog, cujo objetivo é estudar juntamente com todos a Arte Oriental, com ênfase na Arte Japonesa. Pretendo contribuir para despertar o olhar dos ocidentais sobre a melhor forma de apreciar a arte nipônica, com imagens das obras e explicações sintetizadas, e conto com a ajuda de todos para atingirmos esta meta.
Estou iniciando este blog, cujo objetivo é estudar juntamente com todos a Arte Oriental, com ênfase na Arte Japonesa. Pretendo contribuir para despertar o olhar dos ocidentais sobre a melhor forma de apreciar a arte nipônica, com imagens das obras e explicações sintetizadas, e conto com a ajuda de todos para atingirmos esta meta.
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